Entrevista sobre a video instalação Campo Grade na Capela do MAM-BA

Junho, 2010

MAM - Gaio, grande parte de seu trabalho volta os olhos para a relação entre o espaço público, a arquitetura e o homem, neste contexto. “Em sua dissertação de mestrado “Arquitetura Invisível: A ‘Casificação’ do Espaço Urbano pelo Morador de Rua”, você fala do espaço urbano “operado e agenciado pelo morador de rua”. Como as relações humanas interferem e constroem estes “espaços simbólicos”? 

R - Ao meu ver, as relações que se estabelecem na rua ganham uma tensão e um drama mais específicos quando percebidos sob um olhar mais interessado. As feições, a vitalidade e o movimento destas intensidades produzidas pelo corpo, se abrem para uma nova dimensão quando confrontadas com espaço público: ações corriqueiras como comer, brigar, namorar, dormir  etc... traz de volta  esse fluxo do que é vivo e do que é vivido na medida em que o espaço é instrumentalizado para construção dessas interações. O espaço torna-se assim, menos dimensional e mais extrovertido e intensivo, mais volátil e construído não por matéria, mas por intensificações e processos.

 

MAM - Levando-se em conta que os espaços tornam-se lugares através de “uma constelação de relações sociais”, temos, na verdade, arquiteturas provisórias, momentâneas. Qual  “momento” do Campo Grande você está trazendo para a Capela do MAM?

R - Na verdade não há a busca por um momento especifico, o que se vê na praça e sua vizinhança, e isso  está claro nas imagens, é um certo interesse pelo corriqueiro, uma coleção de imagens e de situações vividas e construídas cotidianamente com suas especificidades e diferenças, uma espécie de apropriação e edição da paisagem e das perspectivas que se encontram e se entrelaçam ali e que no espaço expositivo são vistas dentro de um novo contexto do tempo e do espaço.

 

MAM - Nas obras “Camarote” e Campo Grade”, você propõe dois instantes contemplativos para o público. Fale sobre eles e se o espectador, em algum momento, torna-se agente nestas situações? 

R - Eu penso que a apropriação e a reterritorialização desse cenário ou paisagem favorecem, de certa forma,  a uma substituição da experiência puramente física de uma obra pelo uso da corporalidade como um meio de interação entre a percepção física e espacial. Assim a obra atua não somente num campo de ação, mas também no campo da percepção fornecendo alimento visual ao pensamento, aguçando nossas atitudes, ativando nossas memórias, sensações e  associações no campo dos perceptos e afetos. A arte então, passa a operar mais em sintonia com a vida e com a experiência do vivido, numa relação direta entre  arte e vida.

 

MAM - Uma vez que você discute o espaço público, como você vê esta operação de deslocamento deste para o espaço institucional.

R - Eu acho que não há problema algum,  a atitude nesse sentido só reforça a condição não estática que os espaços possuem. Veja o caso do bairro da liberdade em São Paulo. É como se um pedaço do Japão tivesse se descolado de lá pra cá, ou os guetos jamaicanos em Londres, a periferia marroquina e argelina em Paris ou os espaços de imersão do Hélio Oiticica e assim por diante.  Isso só nos mostra que os lugares assim como os  povos são muito mais móveis do que se imagina.  

 

MAM - Uma vez que na produção de arte contemporânea as fronteiras entre linguagens estão " borradas", de que forma você estabelece relações com as diversas expressões artísticas, seus suportes, materiais e meios de ação, na construção de sua poética?

R - Acho que o grande desafio em trabalhar em meios diferentes é encontrar um fio condutor e uma verdade que permeia toda produção, uma continuidade que esteja presente tanto numa escultura quanto num vídeo.

 

MAM - Gaio, você trabalha com o fragmento do Gradil de Carybé e com imagens extraídas da internet. Como se constrói este processo de apropriação, no seu trabalho? 

R -  De forma natural. Essa atitude de apropriação e edição da paisagem e suas intensidades a partir do espaço público nos remonta aos impressionistas e seus processos de apreensão da cena cotidiana. Cito também ao flanêur na Paris do séc XIX e a  ação de percorrer a cidade, experimentando espaços e o movimento das passagens onde se é invadido por sensações e intensificações da vida cotidiana. Tudo isso contribui para a aquisição de novos fluxos experienciais. Adiante, para além da paisagem, Duchamp apropria-se de um mictório introduzindo o objeto trivial do cotitiano na cena estética. Então, na produção de arte atual, essa coisa de citar ou tomar pra si a paisagem do dia a dia e seus objetos é um processo tão natural quanto desenhar.

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