INSTRUMENTOS PARA DOBRAR RIOS

O artista que lida com o espaço, opera com agenciamentos e produçãode efeitos. Em oposição ao planejamento e a estrutura, ele não sabe ao certo no que suas invenções e suas articulações vão resultar porque o espaço perde situabilidade e já não é mais uma inscrição precisa em dimensões geográficas acessíveis à experiência individual, mas sim um espaço de negociação.

 

Na proposta para a 3º Bienal da Bahia o espaço do rio São Francisco é administrado não apenas como suporte, mas como matéria prima de acontecimentos num ambiente carregado de tensão e possibilidades. Inquieto e apto a mover-se em qualquer direção ativado por intensidades que escapam ao nosso controle, segue sempre indicando ou sugerindo uma realidade multiterritorial mais ampla, complexa e desigual. É desta perspectiva que se torna possível uma interpretação alternativa do São Francisco, do seu desenho e tipologia; o que dá ao lugar sua especificidade é o fato de que, se os espaços podem ser traduzidos a partir do encontro de entendimentos na sua órbita, essas negociações em si não são inertes: elas são processos. Talvez se deva dizer também isso do rio, que é ele também um processo.

 

A DOBRA

Experimentamos hoje um espaço multiopcional na composição de nossa identidade e territorialidade. Ao mesmo tempo, na medida em que a ideia de espaço/tempo é discutida numa dimensão cada vez mais ampla e abstrata, tanto espaços, quanto indivíduos e informações experimentam também, e cada vez mais, a potência dos mecanismos de contenção. A tentativa de desvios, controle de fluxos e circulação de informação, de pessoas e coisas, a construção de novos muros, dutos, barreiras, contenções territoriais, e assim por diante nos mostram a face de um poder e o seu efeito barragem. É exatamente neste ponto que se dá um dos grandes paradoxos na compreensão do espaço nos dias de hoje.

 

Se por um lado observamos a fluidez de um espaço flexível e movente, por outro temos a produção contínua dessas fronteiras, limites e suas estratégias de cercamento e controle no e entre os espaços e territórios. O que vem em seguida são movimentações de contra-posicionamento frente ao aparelhamento e a instrumentalização dos espaços, fluxos e sujeitos por alguma forma de controle. E quando os mecanismos de fechamento e contenção já não dão mais conta, é inevitável o aparecimento dos processos de vazão e escoamento bem como as táticas de contorno em contraponto à fronteira e aos limites. Surgem os deslocamentos, as estratégias desviantes em busca de uma saída fora das bordas, da vigilância dos muros e do controle. Os imigrantes ilegais, os grandes êxodos, o narcotráfico, o contrabando, a pirataria, a sonegação e assim por diante são emblemas dessas estratégias de fuga ou contornamento onde se está sempre no meio ou na eminência de posicionamento entre um território ou outro.

 

Nessa direção, a idéia é partir numa residência móvel subindo o rio São Francisco para pesquisa e produção de trabalhos voltados à essa situação de fechamento e abertura provocada pelas inúmeras intervenções, aquisições, desvios e alterações em sua órbita do ponto de vista da engenharia, da topografia e do desenho de seu curso desde a sua foz entre os estados de Sergipe e Alagoas até a cidade de Remanso. Mapear lugares, cidades e localidades próximas ao rio, ouvir o São Francisco, suas memórias e histórias. Todos esses processos são matéria prima para para invenção de trabalhos onde prevaleçam o estímulo a dobra e a “arte de contornar” a configuração dos espaços, lugares e fluxos a partir da diferença. Uma estratégia onde a reação prevaleça nas obras e onde as táticas de mobilidade, mapeamento de experiências e deslocamentos sejam um contra-posicionamento às bem planejadas ocupações estáticas como as construções e monumentos de longo prazo.

1 ETAPA - 16 dias, 3230 quilômetros.  Cidades e regiões mapeadas : Piaçabuçu, AL - Piranhas, AL - Canindé do São Francisco, SE - Paulo Afonso, BA -  Nova Petrolândia, PE - Rodelas, BA - Juazeiro, BA - Petrolina, PE -  Remanso, BA - Casa Nova, BA - Sobradinho, BA. 

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Sobradinho, BA

A quantidade de rio preso pela barragem é um mar no meio da caatinga, quase não se vê terra na linha do horizonte. A muralha de concreto que segura a potência do São Francisco, fez a água engolir quatro cidades provocando um êxodo de cerca de 70 mil pessoas, a migração e o desaparecimento de um sem número de bichos. A contenção que deforma a força do rio e ilumina parte do sertão é a mesma que escurece no fundo do lago, velhas memórias. Mais na frente, perto do mar o São Francisco adoece. 

Casa Nova, BA

Das dunas, seu Nilton aponta para um lugar imaginário no meio do lago e lembra da antiga Casa Nova submersa no fundo das águas do São Francisco. A lua que rege as marés no resto do mundo não tem qualquer função nas ondas da praia doce. Uma procissão de carros pipa disputa a bomba que puxa a água do rio, a cachoeira nessas carrocerias é o emblema do desperdício.

Remanso, BA

Chegamos num domingo a tarde, a cidade praticamente deserta e de portas fechadas produzia uma paisagem fantasmática. Me veio a lembrança da velha Remanso submersa pelo lago de Sobradinho. A margem é plana, extensa e vazia, a sensação espacial é de amplitude. No meio desse deserto azul e verde, uma bomba suga sem descanso as águas do rio ecoando um barulho infinito e seco.

Canindé do São Francisco,SE

O percurso margeando o rio, de Canindé de São Francisco até os arredores da represa de Xingó entre Alagoas e Sergipe surpreende. A visita a locais inusitados como uma imensa estação de captação abandonada, a visão do rio e sua correnteza do alto da serra me fez parar o carro algumas vezes. O fim das corredeiras por conta do represamento acalmaram as águas do São Francisco transformando a região num evento turistico. A estrutura dos passeios de catamarã lotados de gente pelos seus cânions com restaurantes e pontos de apoio no meio do rio é assustadora.

Juazeiro, BA e Petrolina, PE

 

Por conta da quantidade de ilhas no entorno, as cidades poderiam se chamar arquipélago de Juazeiro e Petrolina. Na região semi-àrida, o São Francisco abençoou e retalhou a caatinga com sua lâmina d'agua, a população vive o rio que corta e molha generoso sua terra. Ilha do Fogo, Rodeadouro e Massangano dentre outras, denunciam a correnteza branda que leva o rio adiante. O vaporsinho que envelhece deitado na margem é o avô dos barcos que ligam Juá a sua irmã Petrolina lá do outro lado.

Petrolândia, PE

Da estrada já dá para ver as ruinas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus no meio do rio represado. A construção é a única estrutura que resiste ao desaparecimento de Petrolândia, inundada com a construção da barragem de Itaparica. A população inteira foi relocada para uma nova Petrolandia, desenhada e construida pela CHESF. Ficaram no fundo do lago artificial as referências de lugares e a identidade de uma cidade que ainda hoje se reinventa.

Rodelas, BA

"...os menino de hoje não se melam nem chupam as mangas com as mãos como antes, cortam com a faca..." Dadinho, Professor de história.

Rodelas é um poço sem fim de lembranças. Afogada pelas águas do lago artificial de Itaparica, a única construção visível da cidade velha é a antiga caixa d'água que parece flutuar na superfície do lago como um jazigo. A construção da barragem apagou a cidade do mapa. O maior desafio da população é passar adiante as memórias e histórias da velha Rodelas. O desenho da cidade, suas ruas, praças e construções ainda sobrevive em fotos amareladas e nos galhos da copa das árvores secas que furam a superfície das águas.

Paulo Afonso, AL

Na cidade que transforma o rio em energia, tem-se a primeira impressão da imensa quantidade de água retida pela mão do homem. A violenta cachoeira de Paulo Afonso é agora regulada por um botão com hora marcada, os cânions da trilha do Algorão e do São Francisco entalham uma paisagem fora do comum. A água que falta ao Rio em Piaçabuçu e Piranhas, sobra na grande quantidade de lagos artificiais construidos pelo complexo. 

Piranhas, AL

"...a natureza cobra", Dona Dione, comérciante.

Deixamos Piaçabuçu à tarde e pegamos a estrada rumo à Piranhas em Alagoas. No dia seguinte, fomos subindo o São francisco de barco até a trilha do cangaço na caatinga, onde Lampião e Maria Bonita foram mortos. Do alto da serra, a cidade histórica assiste o seu rio esvaziar. A lâmina das pedras, cada vez mais  à mostra por conta do bloqueio das àguas pelas barragens tornou seu leito navegável para os poucos que sabem ler o desenho de suas águas. Como um cangaceiro escondido, cada pedra e banco de areia do velho Chico parecem estar a espreita de embarcaçãoes mais distraidas.

 

Piaçabuçu, AL

"Esse negócio da dobra que vocês falam, quem tem que fazer é a natureza, quando é o homem que faz a coisa não dá certo não..." Seu Ailton, pescador.

Depois de sete horas de carro partindo de Salvador finalmente chegamos ao rio São Francisco, onde pegamos a balsa na cidade de Neópolis, em Sergipe. Já era noite quando atravessamos o rio e seguimos rumo a Piaçabuçu, em Alagoas, a cidade mais próxima da foz. Acordei cedo no dia seguinte, caminhei pelas ruas, no cais, a quantidade de embarcações denunciava a vocação pesqueira da comunidade. No meio da manhã fomos no barco de seu Ailton até a foz. Ali a margem do São francisco recuou tanto por conta das intervenções no seu curso que hoje é possivel encontrar peixe do mar até 30 quilômetros rio a dentro. A água que antes era doce e farta é agora salobra e distante de casa.

Juazeiro e Petrolina, BA

Gaio Matos, 2014